7 de Setembro: O Brasil independente ainda precisa aprender a conviver com o Brasil dividido

Entre o grito de 1822 e as disputas políticas de 2026, a Independência continua impondo ao país um desafio maior do que escolher governos: construir uma democracia, limites dos Poderes e capaz de conviver com diferenças e preservar aquilo que ainda nos une.

O Brasil chega aos 204 anos de sua Independência diante de uma contradição que talvez explique boa parte do nosso tempo político: somos uma nação soberana no mapa, mas ainda disputamos, todos os dias, o significado de liberdade, democracia e poder. Em Brasília, o governo levou à Esplanada o discurso da soberania nacional. Nas ruas, adversários transformaram a mesma data em palco de críticas ao Supremo Tribunal Federal e de contestação aos limites exercidos pelas instituições. A menos de um mês das eleições, a Independência entrou na campanha eleitoral.
Há algo simbólico nisso. Em 1822, o problema brasileiro era romper a dependência política de Portugal. Agora, em 2026, a pergunta é mais sofisticada: de quem, afinal, o Brasil precisa ser independente? A situação fala em soberania e resistência à interferência estrangeira. A oposição aponta o que considera excessos do Judiciário e sustenta que nenhuma instituição pode ser maior que a Constituição. São discursos diferentes em torno da mesma palavra: liberdade. E talvez esteja justamente aí o retrato mais preciso do Brasil atual.
Democracia, porém, não pode ser medida pela conveniência de quem está momentaneamente no poder ou na oposição. Quem defende liberdade apenas quando sua própria voz é atingida não defende liberdade, defende interesse. Da mesma forma, quem considera legítimo ampliar os poderes de uma instituição porque concorda com suas decisões precisa imaginar o que faria se amanhã esse mesmo poder estivesse nas mãos do adversário. A democracia revela sua qualidade quando aceitamos limites, fiscalização e regras quando o resultado também nos desagrada.
Por isso, o 7 de Setembro deveria pertencer menos aos governos e mais aos brasileiros. A bandeira não é da direita ou da esquerda e o verde e amarelo não podem mudar de proprietário a cada eleição. Quando símbolos nacionais passam a ser tratados como patrimônio de um campo político, perde o país inteiro. Democracia madura permite vestir a camisa do Brasil para apoiar o governo, protestar contra ele ou simplesmente celebrar a pátria sem rótulo ideológico.
O problema é que entramos em mais uma eleição carregando uma democracia emocionalmente exausta. Parte do país enxerga ameaça autoritária na direita e esquerda. Todavia, entre essas duas trincheiras existe uma população que trabalha, paga impostos, enfrenta serviços públicos deficientes e assiste ao debate nacional ser consumido por uma guerra permanente entre personagens, tribunais, partidos e redes sociais. A polarização até produz votos e multidões, mas não necessariamente soluções.
Democracia não é unanimidade, é conflito submetido a regras e ao tempo. É o direito de ir às ruas contra um ministro do Supremo e, ao mesmo tempo, o dever de respeitar a ordem constitucional. É o direito de um presidente defender seu projeto político, mas também a obrigação de compreender que o Estado não pertence ao governo da vez. É permitir crítica dura à imprensa, ao Congresso, ao STF, ao Planalto e às Forças Armadas sem transformar divergência em licença para eliminar institucionalmente o adversário.
Talvez a grande independência que ainda falte ao Brasil seja libertar a política da necessidade permanente de fabricar inimigos. Países não amadurecem porque deixam de divergir, amadurecem quando aprendem a divergir sem destruir as pontes que precisarão atravessar no dia seguinte. Nenhuma eleição dura para sempre, nenhum presidente é eterno, nenhum ministro deveria ser intocável.
O grito de 1822 separou o Brasil de Portugal. O desafio de 2026 é impedir que tantos outros gritos terminem separando os brasileiros do próprio Brasil. Independência, hoje, não é apenas decidir sem tutela estrangeira. É possuir instituições fortes sem instituições absolutas, governos legítimos sem governos proprietários do Estado e cidadãos livres sem cidadãos inimigos uns dos outros.
No fim, democracia e independência compartilham a mesma lógica: ambas exigem limites para que exista liberdade. Talvez o melhor 7 de Setembro não seja aquele em que todos pensem igual, mas aquele em que milhões possam pensar diferente e ainda reconhecer a mesma bandeira, porque uma nação verdadeiramente independente não é aquela que elimina suas diferenças, e aquela suficientemente madura para sobreviver a elas e conviver com elas.
Weverton Santiago
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