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Flávio escreveu “mudança” e “futuro” na mão, mas ainda precisa colocá-los na campanha

Foto do escritor: Weverton Santiago
Weverton Santiago
29 de ago.
3 min de leitura

Na sabatina da Globo, candidato do PL mostrou um Bolsonaro de tom mais controlado e ensaiou movimentos para além da própria família. Mas Banco Master, Jair, Eduardo e o 8 de Janeiro expuseram seu principal desafio: preservar a herança que o tornou competitivo sem deixar que ela determine os limites de sua candidatura.



“Mudança”, “Futuro” e “7/set”. As três anotações na mão de Flávio Bolsonaro durante a entrevista talvez tenham resumido sua candidatura melhor do que muitas respostas. As duas primeiras palavras apontam para onde ele pretende ir; a terceira revela de onde veio. É justamente nessa fronteira que está sua eleição.


Flávio possui algo que a maioria dos candidatos leva meses para construir: identidade, base eleitoral e capacidade de mobilização. O sobrenome Bolsonaro lhe entrega tudo isso, mas também cobra um preço. Quando tenta apresentar o futuro, frequentemente é obrigado a explicar o passado. Seu desafio não é conquistar o bolsonarismo, mas descobrir até onde consegue crescer para além dele.


O Banco Master mostrou isso logo no início. Questionado sobre Daniel Vorcaro e os recursos destinados ao filme Dark Horse, sobre Jair Bolsonaro, Flávio negou irregularidades, afirmou que não recebeu dinheiro e sustentou que houve prestação de contas. Quando a discussão avançou para contratos, planilhas e o caminho dos recursos, teve dificuldades para encerrar o assunto e chegou a deslocar a pressão para Lula. A defesa pode funcionar entre os seus, mas revela um problema maior: campanha presidencial também é disputa por agenda. Quanto mais tempo Flávio gasta explicando episódios ligados ao pai, menos espaço possui para apresentar aquilo que pretende fazer como presidente.


A mesma questão apareceu no debate sobre o 8 de Janeiro e a condenação de Jair Bolsonaro. Flávio buscou proteger o pai, criticou o STF e rejeitou a acusação de tentativa de golpe, seguindo o roteiro esperado, pois relativizar essas pautas significaria colocar em risco justamente a força eleitoral que sustenta sua candidatura.


O problema começa depois dessa defesa. O bolsonarista não precisa ser convencido de que Flávio é Bolsonaro. Quem precisa ser conquistado está mais distante: o conservador, o liberal, o antipetista e parte do centro que podem votar nele, mas não necessariamente desejam novamente uma Presidência marcada por tensão institucional permanente.


Foi nesse terreno que Flávio apresentou um dos movimentos mais importantes da entrevista. Ao afirmar que respeitará o processo eleitoral e o resultado das urnas, criou uma diferença de comportamento em relação aos conflitos do passado. Também reconheceu ter errado ao divulgar uma informação sobre a participação de uma empresa venezuelana nas urnas brasileiras. Não houve ruptura ideológica com o bolsonarismo, mas uma tentativa de mudar o método. Flávio parece ter entendido que, para ampliar sua candidatura, não precisa mudar de lado, precisa mudar a temperatura.


Eduardo Bolsonaro trouxe outro teste dessa estratégia. No tarifaço americano, Flávio responsabilizou Lula, mas reconheceu que o irmão errou ao agradecer pelas tarifas. Defendeu Eduardo da responsabilidade pela decisão americana, sem endossar sua atitude. No debate sobre o PIX, foi ainda mais claro ao classificá-lo como “inegociável”. São movimentos relevantes porque começam a desenhar uma identidade: Flávio tenta ser o Bolsonaro que não abandona a família, mas também não precisa concordar com ela em tudo.


É justamente quando sai da administração dessa herança e entra nas propostas que Flávio precisa provar que “futuro” significa mais do que uma mudança de comportamento. Na economia, prometeu um “tesouraço” na máquina pública, com redução de ministérios, cargos, burocracia e impostos, preservando salário mínimo e aposentadorias. A mensagem é eleitoralmente eficiente, mas ainda carece de números, prioridades e escolhas. Reduzir a estrutura administrativa é uma direção; transformar isso em ajuste estrutural das contas públicas exige explicar onde, quanto e como cortar.


A sabatina mostrou, portanto, o dilema central de sua candidatura. Flávio não precisa abandonar Jair Bolsonaro; precisa acrescentar alguma coisa ao patrimônio político que recebeu dele. Se tentar se afastar demais, pode enfraquecer a própria base. Se permanecer excessivamente dependente do pai, poderá encontrar um teto justamente quando precisar crescer. O sobrenome lhe garante um ponto de partida excepcional, mas não necessariamente os votos que faltam para chegar ao Planalto.


Por isso, aquelas três anotações carregam uma síntese quase perfeita da eleição de Flávio. “7/set” representa o eleitor que ele não pode perder. “Mudança” e “futuro”, aquele que ainda precisa ser conquistado. A entrevista mostrou que ele já ensaia atravessar essa fronteira: moderou o tom, prometeu respeitar o resultado eleitoral, reconheceu um erro sobre as urnas e estabeleceu diferenças em relação a Eduardo. Ao mesmo tempo, Banco Master, a condenação do pai e o 8 de Janeiro mostraram como será difícil escapar do retrovisor.


Portanto, Flávio escolheu preservar o eleitorado que herdou do pai. Agora, o desafio é conquistar quem ainda não está ao seu lado, porque o sobrenome Bolsonaro o colocou na disputa pelo Planalto, mas será o processo eleitoral que dirá se ele também consegue caminhar com as próprias pernas.


Weverton Santiago

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