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Governo do ES: Por que as eleições de 2026 podem terminar no primeiro turno assim como em 2002

Foto do escritor: Weverton Santiago
Weverton Santiago
4 de set.
3 min de leitura

A comparação entre duas disputas pelo Palácio Anchieta sob a ótica da distribuição territorial dos apoios e do papel da dispersão de votos na definição da extensão do pleito.



A política não costuma repetir seus enredos de forma idêntica, mas a distribuição espacial das forças deixa pistas evidentes sobre o destino das urnas. Ao colocar lado a lado a corrida pelo Governo do Espírito Santo em 2002 e a configuração desenhada para 2026, nota-se uma semelhança que vai além dos discursos: o confronto entre uma postulação amparada em um polo metropolitano específico e outra construída sobre uma frente ampla distribuída pelos grandes municípios vizinhos e pelo interior.


Em 2002, Max Mauro entrou na disputa com a estatura de deputado federal, ex-governador e expressivo recall popular, mas sua sustentação territorial concentrava-se em Vila Velha, cidade administrada na época por seu filho, Max Filho. O então senador Paulo Hartung percorreu outro caminho: estruturou alianças nos demais polos da Grande Vitória e reuniu apoios com lideranças municipais em praticamente todas as regiões do Estado.


O resultado dessa distribuição apareceu na apuração. Hartung venceu a eleição no primeiro turno com 53,97% dos votos válidos, contra 41,50% de Max. A grande chave analítica daquele desfecho esteve na soma dos dois, que concentraram mais de 95% dos sufrágios válidos. Ao esvaziarem o espaço para o crescimento de outras legendas, a eleição transformou-se em uma corrida polarizada, encerrando-se logo na primeira etapa.


Em 2026, essa mesma engenharia volta à mesa quando se analisa a balança demográfica real do Espírito Santo. A capital, Vitória, possui expressiva visibilidade institucional e dita o ritmo das conversas públicas, mas abriga menos de 9% de todo o eleitorado capixaba, ocupando a quarta posição no ranking de votantes.


O centro de gravidade demográfica da Região Metropolitana reside no conjunto formado por Serra, Vila Velha e Cariacica, que somam quase um milhão de votos, o equivalente a um terço do eleitorado estadual. Quando se adiciona a esse quadro a extensão do interior, onde reside mais da metade dos eleitores capixabas, evidencia-se a escala do tabuleiro em disputa.


Diante desse mapa de forças, os dois projetos em evidência operam sobre dinâmicas distintas:


  • A estratégia de alianças de Ricardo Ferraço: Conta com o alinhamento institucional dos chefes do Executivo de Serra, Vila Velha e Cariacica, além da maioria dos gestores municipais do interior. Esse apoio formal não transfere votos de forma automática — prerrogativa exclusiva da decisão individual do eleitor —, mas assegura palanques montados, chapas proporcionais ativas e presença física onde a comunicação de massa encontra barreiras. O desafio prático dessa composição é garantir que toda essa estrutura se converta em engajamento real nas urnas.


  • A estratégia de Lorenzo Pazolini: Tem na avaliação da gestão de Vitória sua principal vitrine administrativa e ponto de partida eleitoral. A limitação matemática dessa posição reside no teto demográfico da capital, insuficiente para definir uma disputa estadual isoladamente. O caminho de Pazolini exige ampliar a competitividade nos municípios vizinhos e estabelecer conexões no interior por meio da opinião pública e da comunicação direta. O teste para sua candidatura é demonstrar capacidade de atrair o eleitorado independentemente da posição adotada pelas lideranças municipais locais. Porém, o funil do calendário começa a se estreitar, a exatos 30 dias da eleição.


É no cruzamento dessas duas realidades que reside a possibilidade técnica de a disputa capixaba de 2026 terminar em turno único. A realização de um segundo turno decorre da existência de candidaturas alternativas capazes de reter parcelas de votos válidos suficientes para impedir que a chapa líder alcance a marca de 50% mais um. Se o confronto entre o grupo governista e a oposição metropolitana concentrar precocemente o debate e comprimir os demais concorrentes para patamares residuais, a corrida torna-se estritamente binária.


Em um cenário assim, onde os dois primeiros colocados absorvem quase a totalidade dos votos, uma oscilação moderada de cinco a seis pontos percentuais a favor do primeiro colocado basta para superar a exigência constitucional. Em 2002, a definição antecipada não decorreu apenas do desempenho do candidato vencedor, mas da desidratação das candidaturas secundárias na reta final, que não retiveram votos suficientes para manter a eleição aberta.


Portanto, em 2026, as candidaturas que se posicionam fora dessa polarização direta cumprem esse mesmo papel funcional. Se conseguirem reter frações do eleitorado, haverá segundo turno; caso os votos se concentrem intensamente nos dois principais polos, a geografia política dos apoios locais poderá, mais uma vez, encurtar a disputa e definir o governo capixaba logo na primeira votação.


A história ensina que campanhas curtas não perdoam erros de cálculo. Em disputas que se afunilam com rapidez, o tamanho do calendário e o alcance geográfico testam a todos, tanto quem precisa provar que estrutura política vira voto real, quanto quem precisa furar o cerco a tempo de convencer o eleitor de que a decisão sobre o futuro do Estado merece mais de uma rodada.


Weverton Santiago

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