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Nova pesquisa da Quaest revela o paradoxo da eleição: Lula tem mais votos, Flávio tem mais votos disponíveis

Foto do escritor: Weverton Santiago
Weverton Santiago
8 de set.
3 min de leitura

Lula mantém sete pontos de vantagem no primeiro turno, mas empata com Flávio Bolsonaro por 41% a 41% no segundo. Mais do que uma corrida entre dois candidatos, a pesquisa expõe uma disputa entre bases consolidadas, alta rejeição e uma parcela do eleitorado que ainda procura onde colocar o voto.



A nova pesquisa Quaest revela um paradoxo que talvez seja hoje a melhor tradução da eleição presidencial. Lula lidera o primeiro turno com 36%, contra 29% de Flávio Bolsonaro, diferença de sete pontos que mantém o presidente em posição confortável para avançar à etapa seguinte. Quando a disputa é reduzida aos dois, contudo, essa distância desaparece: 41% para cada lado. Isso não significa que o candidato do PL tenha alcançado Lula na corrida inteira; mostra algo politicamente mais interessante: o presidente tem mais votos na largada, enquanto Flávio encontra maior espaço para crescer quando os demais nomes deixam a pista.


Essa diferença ajuda a compreender por que primeiro e segundo turno contam histórias distintas. Lula possui hoje o maior piso eleitoral. Flávio começa abaixo, embora consiga agregar uma parcela maior dos votos inicialmente destinados a outras candidaturas. É aí que aparece a separação entre adesão direta e voto instrumental: existem núcleos fortemente identificados com ambos, mas uma fatia decisiva do confronto final votará menos para escolher alguém e mais para barrar o adversário. Em disputas de rejeição elevada, o oponente também funciona como cabo eleitoral.


A questão central reside na rigidez desse teto. Flávio registra 55% de rejeição e Lula, 53%. Ao mesmo tempo, suas bases estão altamente cristalizadas: 80% dos eleitores do presidente afirmam que a escolha é definitiva, contra 78% do rival. A aparente solidez embute uma fragilidade evidente: os dois sabem onde estão seus votos, contudo precisam descobrir onde buscar os próximos.


É nesse ponto que a vantagem de Lula no primeiro turno exige cautela. Um presidente em campanha de reeleição dispõe de visibilidade contínua, máquina partidária e entregas administrativas. Estar à frente é natural e relevante, só que o sinal de alerta acende quando a distância evapora no mano a mano. A Quaest sugere que Lula tem hoje mais facilidade para chegar à rodada decisiva na liderança do que para converter essa condição em vitória, dependendo da conquista de votos além de sua base tradicional já mobilizada.


Flávio vive a dinâmica inversa. Encontra dificuldade para ultrapassar o petista enquanto o tabuleiro está fragmentado, tornando-se muito mais competitivo quando o jogo fica binário. Isso indica que sua força decorre menos do apelo ao seu nome e mais de sua capacidade de monopolizar o sentimento anti-Lula. Trata-se de um ativo poderoso, embora carregue uma barreira clara: canalizar o antipetismo não garante automaticamente a maioria dos votos válidos.


Por isso, o dado mais estratégico da pesquisa está nos eleitores de Augusto Cury, que aparece com 8% (após marcar 10% na rodada anterior). A relevância repousa na volatilidade de seus apoiadores: apenas 49% consideram a decisão definitiva. Entre os eleitores de Renan Santos, 59% admitem mudar de voto; entre os de Ronaldo Caiado, 61%. Os nomes da terceira via podem oscilar ou murchar, mas esses votos continuarão no mapa da eleição, e alguém terá de capturá-los.


A sondagem espontânea corrobora esse quadro. Sem cartela de candidatos, Lula soma 28%, Flávio 20% e Cury 4%, enquanto 42% não indicam ninguém. Isso não significa a existência de quase metade do país inteiramente disponível, visto que a resposta espontânea reflete sobretudo memória e engajamento. Ainda assim, atesta que uma parcela expressiva da sociedade recusa os polos estabelecidos.


A economia adiciona pressão ao Planalto. A desaprovação ao governo atinge 50%, contra 43% de aprovação, e 49% dos entrevistados afirmam que a situação econômica pessoal piorou no último ano. O recorte de renda é revelador: entre os que sentem ganhos acima da inflação, Lula chega a 76%; entre os que viram os preços superarem o rendimento, Flávio lidera por 39% a 23%. A mensagem é direta: para o governo, a narrativa de recuperação precisa sair das planilhas macroeconômicas e alcançar o poder de compra no caixa do supermercado.


Dessa forma, interpretar o 41% a 41% como uma arrancada incontestável da oposição ou declínio irreversível do governo seria precipitado. O elemento estrutural, entretanto, está posto: um lidera sem conseguir desgarrar; o outro empata sem demonstrar fôlego para ultrapassar. Em uma corrida onde ambos ultrapassam a marca dos 50% de aversão pública, provavelmente, o vencedor não será quem tiver os apoiadores mais inflamados, mas aquele que se mostrar menos intragável para quem não desejava nenhum dos dois.


Portanto, o primeiro turno continua tendo um líder claro, a eleição como um todo não tem favorito.

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