Caiado tem a chave da segurança, mas ainda procura a senha da economia

No Jornal Nacional, governador mostrou firmeza onde construiu sua principal vitrine política, mas encontrou turbulência na Previdência e nas contas públicas. Para chegar ao Planalto, terá primeiro que provar que seu projeto vai além das fronteiras de Goiás.

A entrevista de Ronaldo Caiado ao Jornal Nacional revelou com nitidez a força e o calcanhar de Aquiles de sua candidatura à Presidência. Na segurança pública, apareceu um candidato seguro, experiente e com discurso estruturado. Quando a sabatina chegou à economia, ao ajuste fiscal e à Previdência, porém, a desenvoltura deu lugar a respostas menos objetivas. Caiado mostrou que sabe exatamente o que pretende representar nesta eleição. Contudo, precisa demonstrar como pretende transformar essa identidade em um projeto completo de país.
Na segurança, Caiado jogou em casa. Ao falar do avanço das facções, do narcotráfico e da necessidade de integração entre as forças policiais, explorou aquela que talvez seja sua maior credencial eleitoral. A proposta de criar uma força integrada entre países da América do Sul para enfrentar organizações criminosas reforçou a tentativa de nacionalizar uma imagem construída em Goiás. Mais importante do que o desenho da proposta foi a mensagem política transmitida: Caiado quer ser reconhecido como o candidato da autoridade e do enfrentamento ao crime. O xerifão do Brasil.
A defesa de uma anistia ampla, geral e irrestrita, incluindo Jair Bolsonaro e condenados pelos atos de 8 de Janeiro, também tem endereço eleitoral. Caiado sabe que existe uma distância entre ser um candidato de direita e conquistar o eleitor da direita. O bolsonarismo continua sendo uma força determinante nesse campo, e enfrentá-lo frontalmente poderia significar perder a disputa antes mesmo de chegar ao confronto com Lula.
Ao defender a anistia e, simultaneamente, ressaltar sua trajetória institucional e o respeito aos resultados eleitorais, Caiado tenta caminhar sobre uma linha estreita: aproximar-se do eleitor de Bolsonaro sem transformar sua candidatura em uma cópia do bolsonarismo. É uma operação política necessária, mas difícil. Antes de disputar o centro do tabuleiro, Caiado precisa conquistar espaço no lado em que escolheu jogar.
A entrevista mudou de temperatura quando chegou às contas públicas. Caiado falou em responsabilidade fiscal, revisão de incentivos, combate aos supersalários e redução de desperdícios. São bandeiras politicamente palatáveis. O problema apareceu quando os entrevistadores trocaram os conceitos pelos números: quanto será economizado e onde exatamente serão feitos os cortes? Nesse momento, faltou precisão.
A Previdência tornou essa fragilidade ainda mais visível. Questionado sobre uma eventual mudança na idade mínima para aposentadoria, Caiado evitou assumir uma posição definitiva. A frase de que a entrevista não era uma “mesa examinadora” terminou produzindo um dos momentos mais desconfortáveis da sabatina. Um presidente, evidentemente, precisa ouvir técnicos, especialistas e o Congresso, mas quem disputa a Presidência precisa, antes disso, indicar ao eleitor qual direção pretende seguir.
Essas nuances não significam que Caiado tenha saído derrotado da entrevista. Para um candidato que ainda busca ampliar sua presença nacional, ele conseguiu algo valioso: deixou uma identidade. Quem acompanhou a sabatina dificilmente terminou sem compreender qual espaço político o governador pretende ocupar.
O desafio começa justamente aí. Caiado não disputa apenas contra Lula ou contra os candidatos que estarão na urna, ele disputa também pela herança de um eleitorado conservador ainda fortemente conectado a Bolsonaro. Sua experiência administrativa e a pauta da segurança pública podem diferenciá-lo, mas dificilmente serão suficientes, caso não venham acompanhadas de respostas igualmente convincentes para economia, emprego, Previdência e contas públicas.
Resumindo, a entrevista mostrou um Caiado que já encontrou o volume da voz de sua candidatura, mas ainda procura ampliar o repertório. Na segurança, falou como quem conhece o caminho, na área econômica apresentou o mapa, mas não traçou a rota até o dia 4 de outubro.
Assim, para chegar ao Planalto, terá que fazer mais do que provar que Goiás deu certo sob seu comando, terá que convencer o Brasil de que sua experiência cabe dentro de um projeto nacional, um Brasil encurralado pela falta de segurança e pela fina camada de gelo da economia.
Weverton Santiago
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