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Zema tenta furar a polarização, mas antes terá que vencer a guerra dentro da direita

Foto do escritor: Weverton Santiago
Weverton Santiago
25 de ago.
3 min de leitura

Entrevista à Globo reforça a imagem liberal e conservadora de Romeu Zema, mas expõe contradições administrativas e o principal dilema de sua candidatura: para enfrentar Lula, primeiro precisa superar os concorrentes que disputam o mesmo eleitorado.




A entrevista de Romeu Zema à TV Globo mostrou talvez o maior desafio de sua candidatura à Presidência: transformar a imagem de gestor construída em Minas Gerais em um projeto nacional capaz de romper a polarização e chegar competitivo ao segundo turno.


Zema entrou na entrevista tentando ocupar um espaço muito específico. Quer ser reconhecido como o candidato da direita que carrega menos o peso da política tradicional e mais a imagem do empresário que chegou ao governo para administrar. É uma narrativa eleitoralmente interessante, sobretudo para uma parcela do eleitorado cansada da disputa permanente entre lulismo e bolsonarismo. O problema é que administrar Minas e convencer o Brasil são desafios de dimensões completamente diferentes.


A Globo percebeu exatamente onde estava a principal fortaleza de Zema e começou atacando esse ponto: as contas públicas. O candidato vende responsabilidade fiscal, mas precisou explicar por que a dívida mineira saiu de aproximadamente R$ 88 bilhões, em 2019, para quase R$ 180 bilhões em 2025. Zema atribuiu o crescimento principalmente aos juros cobrados pela União e argumentou que a dívida diminuiu proporcionalmente à receita do Estado.


Tecnicamente, existe uma discussão sobre os números. Politicamente, porém, o problema é mais simples: quando um candidato constrói sua identidade sobre eficiência administrativa, qualquer contradição aparente nessa área ganha dimensão muito maior, um duelo entre os dados e os olhos.


O mesmo aconteceu quando foi confrontado com o reajuste de quase 300% na remuneração do governador de Minas. Zema justificou a medida pela necessidade de atrair profissionais qualificados e afirmou que destinava seu salário às Apaes. A explicação pode fazer sentido dentro de uma lógica empresarial, mas eleitoralmente oferece munição aos adversários. É difícil defender austeridade para o Estado e, ao mesmo tempo, explicar um aumento dessa magnitude para o primeiro escalão.


Na economia, entretanto, Zema conseguiu deixar claro quem é. Não prometeu aumento real permanente do salário mínimo independentemente das condições econômicas. Garantiu a reposição da inflação, mas condicionou ganhos adicionais ao crescimento e ao equilíbrio fiscal. É uma posição que provavelmente encontrará resistência entre trabalhadores e adversários à esquerda, mas tem uma virtude política: mantém coerência com o discurso liberal que sustenta sua candidatura.


Zema não tentou ser um candidato diferente para cada eleitor. E isso importa.


Num ambiente eleitoral em que candidatos frequentemente suavizam posições para ampliar suas bases, Zema parece apostar justamente na construção de uma identidade ideológica reconhecível: Estado menor, privatizações, flexibilização econômica, responsabilidade fiscal e endurecimento na segurança pública.


Mas a entrevista revelou também outro movimento estratégico. Quando falou sobre o 8 de Janeiro, STF e anistia, Zema aproximou seu discurso do eleitor bolsonarista. Voltou a rejeitar a interpretação de tentativa de golpe para os acontecimentos de 8 de janeiro, defendeu anistia ou novos julgamentos para condenados e criticou a atuação do Supremo.


Não é uma escolha casual. Zema sabe que dificilmente chegará ao segundo turno apenas com o eleitor liberal do Novo, ele precisa avançar sobre uma parcela muito maior da direita. E é justamente aí que começa sua disputa mais complicada, pois antes de enfrentar Lula, Zema precisa sobreviver à própria direita. Assim, o candidato do Novo precisa explicar ao eleitor conservador por que ele deve abandonar nomes politicamente mais identificados com o bolsonarismo para apostar em sua candidatura.


Sua ausência no debate da Band ajuda a compreender essa estratégia. Segundo integrantes de sua campanha, Zema preferiu se preparar para a entrevista da Globo porque considera que sua disputa central deve ser contra Lula, e não contra os demais candidatos da direita. É uma estratégia ousada, onde ele tenta se comportar como candidato de segundo turno antes de garantir presença nele.


A entrevista também mostrou uma característica que pode ser força e fraqueza ao mesmo tempo. Zema fala como administrador mais do que como político. Em determinados momentos isso transmite objetividade; em outros, falta capacidade de transformar números, propostas e conceitos econômicos em uma narrativa emocional capaz de conversar e comover o eleitor considerado comum. Presidente não é eleito apenas por apresentar uma boa planilha, é preciso produzir identificação.


Somando tudo, Zema saiu da entrevista sem comprometer sua candidatura, mas também sem produzir aquele momento político capaz de mudar sozinho o patamar de uma campanha. Consolidou sua identidade, apresentou suas diferenças e mostrou que pretende ocupar um espaço entre o liberalismo econômico e o conservadorismo político.


Portanto, Romeu Zema já demonstrou que sabe qual eleitor procura. Agora precisa provar que existe eleitor suficiente procurando por Romeu Zema. Essa é a principal batalha de sua candidatura.


Weverton Santiago

 
 

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