Renan joga a bomba na eleição, mas ainda precisa controlar os efeitos da explosão

Ao defender até uma bomba atômica para o Brasil, Renan Santos transformou a sabatina da Globo em vitrine para uma candidatura de ruptura. O candidato do Missão marcou território, mas agora terá de provar que suas propostas explosivas resistem ao teste da realidade.

Renan Santos chegou à sabatina da Globo com um desafio diferente dos candidatos mais conhecidos. Antes de convencer o eleitor de que pode governar o Brasil, precisa fazer uma parcela considerável da população descobrir quem ele é e o que representa. A entrevista cumpriu essa função: apresentou nacionalmente um candidato disposto a tensionar consensos e ocupar um espaço próprio na eleição.
O candidato falou em guerra contra o crime organizado, inspiração em medidas adotadas por Nayib Bukele (presidente de El Salvador), nova reforma da Previdência, desvinculação dos pisos constitucionais de saúde e educação, enfrentamento a decisões do STF que considere ilegais e colocou sobre a mesa a proposta mais explosiva da noite: o Brasil deveria discutir a construção de uma bomba atômica no futuro.
Existe cálculo político nessa estratégia. Para um candidato ainda distante dos líderes nas pesquisas, o principal adversário neste momento não é Lula ou quem representa o bolsonarismo, é a invisibilidade. Renan precisa ser conhecido antes de tentar ser escolhido e, numa eleição congestionada pela polarização, dificilmente conseguiria espaço repetindo aquilo que candidatos maiores já dizem.
Na segurança pública encontrou talvez seu discurso eleitoralmente mais palatável. Ao defender uma ofensiva contra as organizações criminosas e a retomada de territórios controlados por facções, ele dialogou diretamente com uma preocupação concreta dos brasileiros. A mensagem é simples: onde o crime expulsou o Estado, o Estado precisa varrer a criminalidade.
A complexidade aparece quando cita a experiência de Bukele e admite medidas excepcionais em regiões dominadas pelo crime, porque recuperar territórios é uma coisa, estabelecer os instrumentos, a forma de atuação e os limites constitucionais é outra. Quanto mais dura a política proposta, maior será a cobrança para que o enfrentamento às facções permaneça dentro das fronteiras do Estado de Direito.
Na economia, Renan também evitou o caminho confortável. Defendeu um ajuste fiscal de grandes proporções, nova reforma previdenciária e a desvinculação dos pisos constitucionais destinados à saúde e à educação. O candidato mostrou ousadia política em dizer, durante uma campanha presidencial, que será necessário mexer novamente na Previdência e nas amarras do Orçamento.
Mas propostas dessa dimensão exigem respostas igualmente robustas, como por exemplo: quem será atingido pela reforma, quais regras mudarão e como garantir que saúde e educação não perderão recursos? Durante a entrevista ele até apresentou a direção pretendida, mas faltou detalhar o caminho. É nesse espaço entre intenção e execução que, possivelmente, seus adversários encontrarão terreno para atacá-lo.
No embate envolvendo o Supremo Tribunal Federal ocorreu algo semelhante. Renan sustentou que decisões consideradas ilegais não deveriam ser cumpridas, posição capaz de encontrar receptividade entre eleitores críticos à atuação do STF, mas que produz uma questão institucional inevitável: quem determina quando uma decisão da mais alta Corte do país ultrapassou a legalidade?
Um presidente pode criticar o Supremo, defender mudanças e utilizar os instrumentos constitucionais disponíveis para contestar suas decisões. O problema começa quando a interpretação individual de um chefe de Poder determina quais ordens judiciais serão obedecidas. Para quem pretende ocupar o Palácio do Planalto, essa fronteira precisa estar claramente delimitada e resolvida.
Foi, porém, a bomba atômica que melhor sintetizou o personagem político apresentado por Renan. Ao defender que o Brasil desenvolva capacidade nuclear militar no futuro, vinculou a proposta à soberania e à ambição de transformar o país em uma potência com maior poder de dissuasão.
Não é apenas uma discussão militar. Renan tenta vender uma visão de Brasil menos preocupado em pedir espaço entre as grandes potências e mais disposto a construir força para ocupá-lo. Como narrativa, a imagem é poderosa, como política de Estado, a bomba é muito mais pesada.
Eleitoralmente, entretanto, a declaração cumpriu seu papel. Deu repercussão à candidatura e reforçou a imagem de alguém disposto a discutir temas que outros preferem manter longe da campanha. O risco é uma proposta utilizada para demonstrar força acabar se transformando em vulnerabilidade quando submetida ao debate sobre seus custos e consequências.
É nesse ponto que aparece a lógica de Renan nesta fase da disputa. Ele não parece interessado em oferecer pequenas diferenças dentro da direita. Quer construir uma identidade distante tanto do bolsonarismo quanto das alternativas tradicionais, reunindo segurança, austeridade econômica, críticas ao STF e soberania nacional numa narrativa de ruptura.
O desafio será transformar atenção em confiança e a pergunta deixará de ser se Renan tem coragem para propor mudanças e passará a ser se ele possuirá condições políticas, jurídicas e administrativas para realizá-las.
Portanto, Renan Santos jogou sua bomba sobre uma eleição dominada pela polarização e conseguiu a explosão que precisava para ser percebido. Agora terá de provar que sabe controlar os efeitos dela, porque acender o pavio pode colocar um candidato no jogo, todavia, chegar ao Planalto exige saber o que fazer depois da explosão.
Weverton Santiago
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