Com o denuncismo em baixa, o que restará para o debate?

A banalização das acusações reduz o impacto do denuncismo e traz à tona uma questão muito mais profunda: qual narrativa é realmente capaz de convencer o eleitor?

"Quando seu adversário estiver errando, não interrompa"
A frase, tradicionalmente atribuída a Napoleão Bonaparte, atravessou os séculos porque traduz uma das regras mais simples e difíceis da estratégia política. Nem todo ataque exige reação, nem toda provocação merece resposta e nem todo erro do adversário precisa ser combatido.
Essa lógica ganha contornos interessantes no atual cenário político do Espírito Santo, onde situação e oposição começam a testar suas narrativas para 2026 em um ambiente marcado por denúncias, ataques, contra-ataques e tentativas permanentes de produzir desgaste e ruídos de ambos os lados. O problema é que existe um limite para essa estratégia, porque, quando tudo vira denúncia, a própria denúncia corre o risco de cair em descrédito e virar plataforma de vitimização para o denunciado.
É o fenômeno da banalização do denuncismo. Isso não significa que denúncias consistentes devam ser ignoradas. Fiscalizar o poder é obrigação institucional da oposição, da imprensa e dos órgãos de controle. A questão política é outra: a repetição sucessiva de acusações, especialmente quando não acompanhadas de fatos novos ou consequências concretas, pode produzir saturação. O eleitor passa a ouvir muito, absorver pouco e, em determinado momento, começa a interpretar tudo como mais um capítulo da guerra eleitoral.
O Caso Apex ajuda a compreender esse movimento. A crise empresarial, o afastamento de executivos, as informações sobre um passivo e seus desdobramentos ofereceram à oposição uma oportunidade para questionar possíveis relações de poder e proximidade entre os ambientes empresarial e político.
Mas existe uma distância considerável entre investigar fatos e transformar fotografias, encontros ou relações institucionais em sentenças políticas antecipadas. É justamente nesse ponto que uma estratégia construída para desgastar o adversário pode começar a produzir o efeito contrário e criar uma casca resistente contra o próprio grupo acusador.
Esse talvez seja um dos pontos mais importantes para compreender a próxima etapa da disputa capixaba. O denuncismo funciona enquanto consegue produzir novidade, dúvida ou indignação. Quando passa a operar pela repetição, corre o risco de perder sua capacidade de persuasão e cair no eixo da banalização, anestesiando a opinião pública e, paradoxalmente, fortalecendo aquele que se pretendia enfraquecer.
Surge, então, a figura política do denunciado permanente. Quando um mesmo campo passa a ser responsabilizado diariamente por acontecimentos de naturezas distintas, existe o risco de que acusações realmente importantes sejam recebidas pelo eleitor com o mesmo grau de desconfiança, transformando o extraordinário em assunto ordinário e sem efeito. É nesse ambiente que o denuncismo pode fabricar involuntariamente sua própria vacina.
A estratégia da oposição, naturalmente, passa pela identificação das vulnerabilidades de quem exerce o poder. Isso faz parte da própria dinâmica democrática. Quem pretende representar mudança precisa apontar aquilo que considera necessário mudar. O problema começa quando a denúncia deixa de ser instrumento de uma narrativa política e passa a ser a própria narrativa, esvaziando a essência do debate público.
Por outro lado, quem está na situação também precisa compreender a lógica dessa equação. Responder a cada ataque pode ser tão equivocado quanto atacar permanentemente. Toda reação concede importância ao fato original e, dependendo da dimensão da resposta, uma acusação que permaneceria algumas horas no ambiente digital pode ganhar dias de repercussão. Ou seja, o adversário pode ganhar uma importância e um tamanho que não tem.
É nesse ponto que a frase atribuída a Napoleão ganha aplicação prática. Se o adversário escolheu uma estratégia que começa a demonstrar sinais de desgaste, interrompê-lo pode significar salvá-lo do próprio erro.
Porém, a máxima funciona para os dois lados. A situação também pode cair na armadilha da autossuficiência. O desgaste do discurso adversário não transforma automaticamente continuidade em preferência eleitoral. Da mesma forma, denunciar não substitui projetos e propostas.
No fim, quem construir apenas uma narrativa contra alguém poderá descobrir tarde demais que esqueceu de construir uma narrativa propositiva e alinhada aos padrões políticos e administrativos do eleitor capixaba.
Por isso, quando seu adversário estiver errando, não interrompa.
Weverton Santiago
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