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Não é a direita que está crescendo, é o antipetismo que está encontrando novos caminhos

Foto do escritor: Weverton Santiago
Weverton Santiago
há 6 dias
4 min de leitura

O cenário nacional e a disputa pelo Governo do Espírito Santo sugerem um fenômeno mais complexo do que uma simples guinada ideológica do eleitorado. Parte do movimento observado nas pesquisas pode estar menos relacionada à expansão da direita e mais à reorganização de uma força antiga da política brasileira: a rejeição ao PT.



A política brasileira tem uma facilidade impressionante para transformar qualquer movimento eleitoral em mudança ideológica. Se um candidato conservador cresce, o país virou à direita. Se a esquerda avança, o Brasil ficou progressista. O eleitor, porém, costuma ser bem menos disciplinado que as nossas apressadas classificações. E talvez seja exatamente aí que esteja uma das chaves para compreender 2026.


O que aparece nas pesquisas pode não ser simplesmente uma direita crescendo, mas um antipetismo recuperando musculatura. A eleição presidencial oferece pistas dessa diferença. Lula e Flávio Bolsonaro chegaram, segundo a Quaest de setembro, ao mesmo patamar de rejeição. Isso revela uma disputa marcada por dois polos capazes de mobilizar parcelas expressivas do eleitorado, mas também de provocar resistência igualmente elevada. Em outras palavras, existem forças e rejeições dos dois lados.


Confira o retrato nacional:


  • Lula: 55% de rejeição;


  • Flávio Bolsonaro: 55%;


  • No Sudeste, 60% dizem que não votariam em Lula;


  • Entre os independentes, a rejeição aos dois chega a 63%;


Esse é um detalhe importante porque direita e antipetismo não são sinônimos. Um eleitor pode rejeitar o PT sem ser bolsonarista, assim como pode rejeitar Bolsonaro sem necessariamente se identificar com a esquerda. Entre esses dois polos existe uma faixa do eleitorado que não escolhe pela fidelidade ideológica, mas pela avaliação do momento, da economia, da segurança, do governo e das instituições.


É nesse espaço que a crise do sistema passa a importar. O desgaste institucional envolvendo o STF acrescentou uma nova camada ao ambiente eleitoral. O Datafolha mostrou que 85% disseram não ter alterado sua preferência presidencial em razão das acusações envolvendo Alexandre de Moraes, enquanto 76% consideraram excessivo o poder dos ministros da Corte. Os números não autorizam concluir que a crise esteja transferindo votos para qualquer candidatura. Revelam, porém, algo politicamente relevante: existe uma insatisfação institucional que ultrapassa a disputa entre Lula e Bolsonaro.


Aqui mora uma diferença fundamental. Crises institucionais raramente entregam votos embalados para um candidato. Elas produzem ambiente, aumentam desconfianças, reforçam percepções anteriores e tornam determinados discursos mais receptivos. Quem consegue transformar esse sentimento em voto é outra história.


Quando essa temperatura chega ao Espírito Santo, o fenômeno fica ainda mais interessante. Os levantamentos recentes apresentam percentuais diferentes, mas apontam uma configuração semelhante: Ricardo Ferraço e Lorenzo Pazolini concentram a maior parcela das intenções de voto, enquanto o petista Helder Salomão aparece atrás dos dois.


A Real Time Big Data divulgada em setembro oferece uma fotografia bastante clara dessa distância.


Acompanhe os números da disputa para o Governo do ES:


  • Ricardo Ferraço: 43%


  • Lorenzo Pazolini: 33%


  • Helder Salomão: 13%


Se estivéssemos diante apenas de uma expansão linear da direita, seria razoável esperar que o principal beneficiário desse movimento fosse Pazolini, candidato que está coligado com o PL de Bolsonaro. Entretanto, Ricardo aparece à frente sustentando uma composição política mais ampla, heterogênea e pragmática.


Essa aparente contradição talvez seja justamente a informação mais valiosa da pesquisa. O eleitor capixaba que não deseja votar no PT não possui apenas uma alternativa. Pazolini pode oferecer uma saída situada à direita, no entanto, Ricardo também apresenta outra possibilidade, apoiado numa coalizão que atravessa diferentes campos ideológicos e políticos, além de reunir uma estrutura municipal bastante expressiva.


Um outro levantamento publicado neste mês apontou apoio declarado de 65 dos 78 prefeitos capixabas ao governador. Com isso, a rejeição acrescenta outra peça ao quebra-cabeça.


Confira a rejeição no Espírito Santo segundo a pesquisa da Quaest:


  • Helder Salomão: 34%


  • Ricardo Ferraço: 30%


  • Lorenzo Pazolini: 22%


Helder apresenta o maior percentual numérico entre os três, embora esteja tecnicamente empatado com Ricardo dentro da margem de erro. Isso não significa que seus 34% sejam automaticamente antipetistas, muito menos que migrem para um determinado adversário. Lembrando que a rejeição mede resistência a uma candidatura, ela não revela sozinha para onde irá esse eleitor, contudo, ajuda a compreender o tamanho do desafio.


Talvez seja justamente o Espírito Santo que exponha com maior clareza a diferença entre crescimento da direita e crescimento do antipetismo. Pazolini precisa transformar identidade ideológica em maioria. Ricardo precisa preservar uma coalizão eleitoral que reúne grupos distintos. Helder precisa ampliar seu espaço para além do eleitorado que já se identifica com seu campo político. São desafios diferentes dentro da mesma eleição.


A polarização nacional oferece ao antipetismo um caminho mais concentrado. Já no Espírito Santo, a existência de duas candidaturas competitivas fora do campo petista fragmenta essa alternativa. Por isso, interpretar todo eleitor que se distancia do PT como alguém caminhando para a direita pode produzir uma leitura confortável, porém incompleta. O eleitor não muda necessariamente de ideologia quando muda de voto, às vezes, muda apenas aquilo que decidiu rejeitar.


Portanto, a pergunta que ganha ares de complexidade não é apenas sobre quem está crescendo, mas o que está fazendo o eleitor se mover e quem terá a capacidade de interpretá-lo e capturá-lo.


Weverton Santiago

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