Tu vens, tu vens, eu já escuto os teus sinais: O Brasil está acumulando uma indignação perigosa que a política insiste em ignorar

O desgaste com a política, a desconfiança nas instituições e a percepção de impunidade formam uma combinação ameaçadora. O alerta cresce silenciosamente enquanto quem está no poder parece acreditar que tudo continuará sob controle.

O Brasil acumula uma tensão silenciosa que a classe política insiste em tratar como ruído de fundo. Não se trata da polarização habitual ou da rejeição passageira a este ou àquele governo, o que se desenha no horizonte é o esgotamento da paciência com as próprias regras do jogo. A sociedade começa a perceber que as estruturas de poder mantêm uma eficiência impecável para se autoimunizar, mas operam com lentidão exasperante quando chamadas a responder aos dramas do cidadão comum.
A fotografia dos levantamentos recentes não deixa dúvidas sobre a temperatura do ambiente:
Desconfiança partidária: 52% manifestam descrença direta nos partidos políticos (Datafolha).
Lanternas da confiança: Partidos 30 pontos e Congresso Nacional 34 pontos ocupam o patamar mais baixo de credibilidade institucional (Ipsos-Ipec).
Centralidade da integridade: 31% apontam a ausência de escândalos de corrupção como o atributo decisivo na escolha presidencial (Quaest), superando até o compromisso formal com a democracia (28%).
Persistência da pauta: A corrupção permanece cravada entre as maiores preocupações nacionais para 27% dos eleitores (BTG/Nexus).
Isoladamente, estatísticas não produzem convulsões sociais, todavia, combinadas, desenham o perfil do desencanto com a política. A erosão democrática raramente começa pelo barulho das praças, ela germina no silêncio de quem deixa de acreditar na capacidade de autocorreção do sistema.
Anos a fio de escândalos, retórica judicial e atritos entre Poderes ensinaram ao brasileiro uma lição amarga: a régua da responsabilização parece mudar de escala conforme o peso do investigado. Termos nobres como prerrogativa de foro, imunidade e garantias institucionais perdem sua razão jurídica ao colidir com a realidade da população. Para o cidadão comum, soam como salvo-conduto de uma elite blindada e imune à punibilidade. Quando a técnica do direito perde a adesão social, a legitimidade se desfaz e nenhum discurso técnico ou figura emblemática recuperam o terreno da credibilidade.
O perigo dessa insatisfação represada é a sua imprevisibilidade. A história política demonstra que a estabilidade aparente é o biombo atrás do qual frustrações dispersas ganham unicidade, até que um fato fortuito funcione como estopim, uma espécie de gasolina jogada ao fogo.
O traço mais perturbador deste momento é que esse esgotamento recusa o enquadramento ideológico tradicional. Se a descrença transbordar os nomes da vez e alcançar a mecânica das instituições, situação e oposição notarão que o questionamento não é sobre quem governa, mas sobre por que continuar acreditando em promessas de mudança que resultam na permanente conservação do mesmo quadro.
Ainda não existe clamor por rupturas, mas pela recuperação moral da política e das instituições públicas brasileiras. Também por regras compreensíveis, responsabilidades efetivas e o fim do poder como escudo. O erro das elites é confundir a ausência de multidões nas ruas com conformismo ou ausência de indignação.
O Brasil não está à beira do colapso, mas emite um incandescente sinal de alerta. O grande erro da política tradicional é a sua teimosa vocação para decifrar avisos apenas quando a barragem cede ou quando o tempo da reflexão já ruiu e a margem para o equilíbrio se esgotou.
Tu vens, tu vens, eu já escuto os teus sinais. Que a conveniência não obstrua os ouvidos dos Poderes, nem a cegueira escureça os olhos da Justiça.
Weverton Santiago
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