O Mosaico Político Capixaba: Engenharia eleitoral, arranjos de cúpula e o xadrez de 2026 no ES

Entre o pragmatismo das coligações e a disputa de narrativas, a corrida pelo Palácio Anchieta revela a fisiologia e a mudança de forças no estado.
A política capixaba opera em um móbile de forças contínuas, onde a antecipação dos arranjos partidários tenta capturar o eleitorado antes mesmo da consolidação do debate público. As movimentações recentes envolvendo os bastidores partidários demonstram que a sucessão no Palácio Anchieta não se desenhará somente no campo das tensões das "ideologias puristas", mas no pragmatismo analítico, no poder de composição e na capacidade de ocupação de espaços políticos, especialmente no interior do estado.
Vamos analisar algumas possibilidades, a maiêutica da política capixaba:
1. O Realismo Partidário: PL no Palanque de Pazolini e o PSD na Base do Governo
A migração de forças partidárias reafirma a dominância da engenharia política sobre a coerência doutrinária, muito defendida pela ala conservadora.
Vejamos:
PL e Lorenzo Pazolini: Ao atrair a sigla liderada por Magno Malta para o seu projeto, Pazolini assegura ativos como fundo partidário, tempo de televisão e parte do eleitorado conservador da Grande Vitória. Contudo, também atrai passivos, como a alta rejeição de Magno Malta perante outra parcela do eleitorado. Vale observar também o processo de "derretimento político" que o pré-candidato a presidente do PL, Flávio Bolsonaro enfrenta, o que também pode ter consequências e influenciar nos estados.
PSD e o Palácio Anchieta: A reaproximação estratégica do PSD com a base governista liderada por Ricardo Ferraço (MDB) responde à lógica de preservação do centro político. O movimento estanca a sangria de aliados e reforça a blindagem governamental através de uma rede de prefeitos e lideranças do interior. Lembrando que o município de Colatina é comandado pelo PSD, um importante polo na região noroeste. Contudo, tem que resolver o problema de Serginho Meneguelli, pré-candidato ao senado e acompanhar a situação de Paulo Hartung, a interrogação do PSD.
Ou seja, na busca por capilaridade, Pazolini ganhou o PL, mas pode perder o PSD, uma troca canalizada para atrair nichos da direita, que ainda esbarra na força da política pragmática e municipalista do governo.
Outro fator que não pode passar despercebido é a unicidade do bloco da direita, um exercício que precisará de bastante diálogo para reagrupar os interesses que norteiam a disputa. Existem várias direitas dentro da direita, uma verdadeira colcha de retalhos verde e amarela, com tons brancos e azuis.
2. Quem vai derrubar ou sustentar Meneguelli na bicicleta? A encruzilhada estrutural do pré-candidato ao Senado
Líder em votação proporcional e dono de expressivo recall eleitoral, Serginho Meneguelli enfrenta o clássico gargalo do "político sem estrutura". No cálculo das cúpulas partidárias, candidatos hiper populares de estilo independente podem ser vistos como ativos de alto risco para os chamados projetos majoritários.
Sem o controle de uma legenda expressiva ou de um grupo político coeso para garantir espaço nas convenções, a sua sobrevivência política depende de concessões e arranjos da alta cúpula, correndo o risco contínuo de ver seu capital eleitoral rifado em nome de composições proporcionais.
Foi o que Serginho Meneguelli denunciou numa recente publicação em suas redes sociais, dizendo que mais uma vez estava sendo deixado de lado por outros interesses e que não admitiria uma nova "manobra" contra o seu projeto rumo ao Senado.
O grupo de Pazolini parece não querer sustentar as ambições de Meneguelli. Sobrou para o governo, que já abriu conversas com o partido do deputado.
Fica firme na bicicleta aí, Serginho!
3. A crescente da chapa de Ricardo Ferraço e as possibilidades com a chegada do PSD
Visivelmente, o governo parece ter acelerado o processo de asfixia política no interior do estado, e a consolidação do projeto de Ferraço vem ganhando forças.
Com a chegada do PSD, surge também a eventual inclusão de Livia Herundina Pontara de Vasconcelos, esposa do prefeito de Colatina, Renzo Vasconcelos, como um forte nome para compor a vice na chapa de Ferraço, o que pode atender a critérios geográficos, de representatividade feminina e a outros pré-requisitos que a vaga exige.
Todavia, o jogo está sendo jogado e muita coisa ainda vai acontecer, mas é inegável que o PSD encorpa ainda mais o projeto do governo, um reforço importante vindo do noroeste capixaba, funcionando como a "ponte perfeita" para neutralizar a expansão de adversários na região do Rio Doce.
4. Quem vai querer o Paulo? A sina do ex-governador Paulo Hartung e sua tentativa de puxar o PSD para outros caminhos
Paulo Hartung, o governador que inaugurou a política de "ajuste e equilíbrio fiscal" no Espírito Santo e que esteve à frente do Palácio Anchieta por três mandatos, parece ser a carta que ninguém quer virar.
Dá série "o mundo não vira, capota", em meados dos anos 2000, com altíssima aprovação, quase todos os nomes da época queriam ser o "candidato do Paulo". Agora, parece que as coisas mudaram significativamente, e Paulo Hartung, entusiasta do projeto de Pazolini, encontra-se entre a cruz e a espada, um "fantasma" que tenta assombrar os dois lados.
Com a guinada dos republicanos para o PL de Magno Malta, o PSD se viu preterido, obrigando a sigla a abrir conversas com Renato Casagrande e Ricardo Ferraço. Porém, adaptando o poema de Carlos Drummond: "No meio do caminho tinha uma pedra, tinha uma pedra no meio do caminho". Hoje, existe um Paulo no meio do caminho, e no meio do caminho existe um Paulo. E aí? Seguir, parar ou desviar?
A política é cruel com o tempo, e o hiato desde o último mandato de Paulo Hartung (2015-2018) pode não ter corroído o seu recall, mas pode impedi-lo de crescer no processo caso opte por se candidatar ao governo, um risco ao qual ele não costuma se expor. O homem é matemático e analítico, sabe calcular e refletir.
A política é assim: transforma patinhos feios em cisnes plumosos e lindos cisnes em patinhos desprovidos de beleza, depende do momento e da conjunção de fatores.
5. Helder Salomão: O teto da militância e a fronteira do voto
Detentor de recall político e administrativo, Helder Salomão colide com o "teto de vidro" imposto pela rejeição ao PT em regiões estratégicas do estado.
Para viabilizar uma candidatura majoritária competitiva, ele precisaria desvincular sua imagem da pauta ideológica e de algumas figuras do PT governamental, o que é quase impossível. Tentado a entrar na briga para defender o mandato do presidente Lula, Helder pode não alcançar o perfil pragmático necessário para furar a bolha do eleitorado de centro, um ativo indispensável para quem está no cerne das disputas majoritárias.
No estado, Helder precisará desconstruir as narrativas bolsonaristas e a pauta do antipetismo, além de "brigar" com Ferraço, que não manteve o grupo petista no governo.
Tarefa difícil para quem está no centro da polarização e diante de um eleitorado que não é adepto a rupturas, como o capixaba.
Portanto, a eleição para o governo do Espírito Santo não será decidida meramente por discursos, mas pela ocupação de espaços e pelo arranjo contínuo de forças.
Enquanto o eleitorado observa a superfície, as peças do xadrez capixaba são movidas com cálculos cirúrgicos e constantes. Esse mapeamento mostra aos protagonistas que a estrada começa a ficar estreita e espinhosa, exigindo muita habilidade para traduzir o sentimento do eleitor, principalmente daquela parcela ainda anestesiada, para a qual as eleições não estão no radar.
Por ora, somente as bolhas falam, se movimentam, se agridem e fazem barulho. É a turma da sala e da varanda, aquela que dificilmente participa da escolha dos ingredientes e do cardápio final.
Vamos seguir, tentando ler e compreender esse frenético mosaico da política capixaba.
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