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A armadilha do já ganhou: Quando o favoritismo encontra a realidade das urnas

Foto do escritor: Weverton Santiago
Weverton Santiago
há 4 dias
3 min de leitura

Da vantagem reduzida de Pazolini no Espírito Santo à virada de Lula sobre Flávio Bolsonaro, o segundo turno expôs os riscos da confiança excessiva e revelou como a mobilização, a comunicação e a participação popular podem redefinir uma eleição.



A política tem uma armadilha silenciosa: a sensação de que a eleição terminou antes da abertura das urnas. Quando a vantagem se transforma em certeza, o favoritismo deixa de ser uma condição eleitoral e passa a alimentar a expectativa de vitória inevitável. O segundo turno de 2026 apresentou dois retratos desse fenômeno: no Espírito Santo, uma liderança expressiva terminou em vitória apertada. No cenário nacional, quem começou à frente terminou derrotado. Em ambos os casos, a distância entre expectativa e resultado revelou muito mais do que uma simples mudança nos números.


No Espírito Santo, Lorenzo Pazolini chegou ao segundo turno com 49,65% dos votos válidos, contra 34,06% de Ricardo Ferraço. A vantagem de 15,59 pontos percentuais sugeria uma eleição relativamente confortável, mas o desfecho apresentou outro cenário: Pazolini venceu com 52,17%, diante de 47,83% do adversário. A diferença final de 95.699 votos mostrou que o favoritismo não impediu a reorganização das preferências. A liderança foi preservada, mas a margem revelou uma disputa muito mais competitiva do que a primeira votação indicava.


No cenário nacional, o contraste foi ainda mais significativo. Flávio Bolsonaro encerrou o primeiro turno com 47,03%, à frente dos 45,16% de Luiz Inácio Lula da Silva. Três semanas depois, Lula foi reeleito com 51,79%, contra 48,21%. A inversão não pode ser atribuída exclusivamente ao comportamento das campanhas, mas permite examinar estratégias distintas. Enquanto Flávio manteve parte importante de sua comunicação concentrada no eleitorado contido na sua própria bolha, Lula buscou ampliar sua presença para além da base tradicional, transformando a desvantagem inicial em estímulo à mobilização.


A campanha de Flávio transmitiu, em determinados momentos, uma percepção de confiança elevada, alimentada pela liderança no primeiro turno e pela força de sua base digital. O risco dessa postura está em confundir a capacidade de mobilizar apoiadores já convencidos com a necessidade de conquistar novos eleitores. O chamado “salto alto” não comprova acomodação, mas traduz uma vulnerabilidade estratégica: falar continuamente para quem já concorda pode fortalecer a própria base sem ampliar, na mesma proporção, o alcance eleitoral.


Em direção diferente, Lula apostou na reativação da militância petista, na presença territorial e na mobilização digital. O esforço para recolocar o PT nas ruas encontrou complemento na intensa circulação de conteúdos pelo Canal Lula e nas redes de apoiadores. A estratégia também procurou alcançar eleitores ausentes no primeiro turno, tratando a abstenção como uma variável relevante. Mais do que conquistar votos de outras candidaturas, era necessário transformar apoio potencial em comparecimento efetivo às urnas.


Essa diferença de abordagem ganhou importância diante da queda da abstenção nacional, de 21,08% para aproximadamente 19,22%. O aumento da participação ampliou o universo de votos em disputa, embora não seja possível atribuir os novos comparecimentos exclusivamente a uma candidatura. O resultado também refletiu transferências de votos, mudanças de preferência e diferentes capacidades de comunicação. Nesse contexto, mobilizar deixou de ser apenas uma demonstração de força política e passou a representar uma dimensão decisiva da competição eleitoral.


Há, portanto, uma distinção fundamental entre liderar uma eleição e compreender as exigências do segundo turno. A primeira votação mede forças em um cenário de múltiplas escolhas. A etapa decisiva exige ampliar alianças, superar resistências e alcançar quem ainda não se sente representado. A vantagem inicial pode alimentar uma segurança incompatível com a volatilidade do eleitorado, enquanto a desvantagem pode estimular reorganização e reação. Nenhuma dessas consequências é inevitável, mas ambas ajudam a compreender por que campanhas aparentemente consolidadas enfrentam dificuldades inesperadas.


O balanço de 2026 reúne duas trajetórias distintas sob uma mesma reflexão. Aqui no estado, Pazolini preservou a liderança, embora com uma margem consideravelmente menor. Na disputa presidencial, Flávio Bolsonaro não conseguiu converter o favoritismo inicial em vitória, enquanto Lula ampliou sua mobilização e reverteu o resultado. Isso não comprova arrogância de um lado nem superioridade estratégica absoluta do outro. Revela que a confiança das campanhas não determina o comportamento de um eleitorado que continua fazendo escolhas até o último momento.


Portanto, a maior armadilha eleitoral talvez não esteja em desconhecer o adversário, mas em acreditar que o eleitor já tomou uma decisão definitiva, pois o favoritismo pertence ao momento, a vitória depende do voto.


Weverton Santiago

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