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Sociologia do voto: Quando a polarização impede o reconhecimento do outro

Foto do escritor: Weverton Santiago
Weverton Santiago
20 de out.
2 min de leitura

Com mais de 50 milhões de votos cada um, os presidenciáveis representam parcelas expressivas da sociedade brasileira. A disputa pelo poder não pode transformar adversários em inimigos, nem negar a legitimidade democrática de quem pensa diferente.



A polarização política brasileira chegou a um estágio em que reconhecer o adversário parece significar fraqueza, quando deveria representar maturidade democrática. Lula e Flávio Bolsonaro disputam não apenas a Presidência da República, mas também o direito simbólico de representar o Brasil. O problema começa quando cada candidatura se apresenta como expressão legítima da sociedade e trata a outra como uma ameaça à própria existência do país.


O primeiro debate presidencial do segundo turno, realizado neste domingo (18), pela Rede Bandeirantes, revelou essa dificuldade. Entre acusações, provocações e cobranças sobre acontecimentos do passado, os candidatos encontraram pouco espaço para reconhecer a legitimidade política um do outro. A divergência, elemento indispensável à democracia, acabou frequentemente confundida com desqualificação pessoal.


Os números das urnas tornam essa postura ainda mais preocupante. Flávio Bolsonaro recebeu aproximadamente 56,1 milhões de votos no primeiro turno, enquanto Lula conquistou cerca de 53,9 milhões. São dois contingentes expressivos de brasileiros que fizeram escolhas diferentes, motivadas por valores, experiências, interesses e expectativas distintas, onde nenhum candidato pode reivindicar o monopólio da vontade popular diante de tamanha representação eleitoral.


Existe uma diferença fundamental entre combater ideias e negar a legitimidade de quem as defende. Lula não precisa concordar com Flávio Bolsonaro para reconhecer os milhões de brasileiros que o escolheram. Da mesma forma, Flávio não precisa aderir ao projeto petista para respeitar a trajetória política de Lula e os eleitores que nele depositaram confiança. O reconhecimento não exige concordância, tampouco absolve erros ou elimina responsabilidades, exige apenas compreender que a democracia pertence também àqueles de quem discordamos.


Entretanto, a lógica eleitoral parece caminhar na direção contrária. Para mobilizar suas bases, os candidatos frequentemente recorrem à construção de ameaças, alimentando a percepção de que uma eventual vitória adversária representaria uma tragédia nacional. O medo transforma-se em instrumento de convencimento, enquanto o ressentimento ocupa o espaço que deveria pertencer à esperança. Nesse ambiente, vencer passa a importar mais do que governar e derrotar o outro torna-se mais urgente do que apresentar soluções.


Há também uma armadilha política nessa estratégia. Ao reduzir milhões de eleitores à imagem negativa de seus candidatos, as lideranças deixam de compreender as razões sociais que sustentam cada escolha. O voto não é necessariamente uma declaração de amor a um político, assim como a rejeição não significa adesão automática ao seu adversário. Muitas vezes, representa insatisfação, necessidade de proteção, identificação ou simples expectativa de mudança.


O Brasil que vota em Lula não desaparece com uma vitória de Flávio Bolsonaro. Tampouco o país que escolhe Flávio deixa de existir caso Lula seja reeleito. Essa constatação, aparentemente elementar, deveria orientar qualquer liderança que pretenda governar uma sociedade plural. Afinal, o presidente eleito não recebe autorização para governar apenas sobre seus apoiadores, mas a responsabilidade constitucional de representar todos os brasileiros, desafio que ultrapassa a conquista dos votos decisivos e cobra capacidade de compreender o Brasil real.


Assim, governar exige escutar inclusive aqueles que não aplaudem, reconhecer demandas que contrariam convicções e aceitar que nenhuma vitória eleitoral concede superioridade moral sobre a outra metade da população.


Weverton Santiago

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