Entre a performance e o argumento: Quando o espetáculo ocupa o lugar da escolha

No último debate antes das urnas, Lula e Flávio Bolsonaro privilegiaram o confronto. Diante de uma decisão que definirá os rumos do Brasil, o eleitor buscava propostas ou esperava pelo duelo?
O debate presidencial da Rede Globo, nesta sexta-feira (23), expôs uma contradição da política brasileira: o país está prestes a escolher seu presidente da República, enquanto os candidatos dedicam boa parte do encontro à desconstrução um do outro. Lula e Flávio Bolsonaro abordaram questões relevantes, mas os ataques frequentemente se sobrepuseram às soluções. A crítica é legítima na democracia, mas o problema começa quando deixa de sustentar o argumento e passa a substituí-lo por excessos beligerantes.
Argumentar exige conhecimento, coerência e capacidade de apresentar caminhos. Performar exige presença, rapidez e habilidade para produzir conteúdos midiáticos. Ambas são competências políticas, mas uma resposta capaz de impressionar milhões de espectadores não significa, necessariamente, uma solução para os problemas do país. Quando a forma prevalece sobre o conteúdo, a discussão perde profundidade e se aproxima do espetáculo.
A guerra pela imagem
Os candidatos chegaram ao estúdio com estratégias semelhantes: preservar suas bases, administrar rejeições e enfraquecer a credibilidade do adversário. Lula recorreu à experiência administrativa e à comparação entre governos. Flávio procurou representar a mudança, explorando os desgastes da atual gestão. A disputa passou a girar em torno de quem ofereceria o maior risco, deixando em segundo plano quem demonstraria melhores condições de governar.
Mas seria correto atribuir exclusivamente aos candidatos a responsabilidade pelo nível do encontro? Parte da audiência provavelmente esperava o confronto. Na polarização, muitos acompanham a política como torcedores diante de uma final: procuram a vitória do próprio lado, comemoram os erros do adversário e compartilham os melhores momentos. Nas redes sociais, uma provocação ganha repercussão imediata, enquanto uma explicação consistente raramente desperta o mesmo entusiasmo.
Essa dinâmica também influencia as campanhas, que monitoram sentimentos e adaptam discursos às expectativas do público. O espetáculo, portanto, não nasce apenas da estratégia dos candidatos, mas de um ambiente que recompensa os ataques e reduz o espaço para a reflexão. A comunicação eleitoral se torna cada vez mais eficiente em mobilizar emoções, sem ampliar a compreensão dos problemas nacionais.
O terceiro personagem: a abstenção
Existe, porém, um personagem ausente das câmeras que pode ser decisivo no domingo: o eleitor que ainda não sabe se comparecerá às urnas. O primeiro turno registrou aproximadamente 33 milhões de abstenções, cerca de 21% do eleitorado. Nem toda ausência representa desencanto político, mas esse contingente ganha relevância em uma disputa equilibrada, na qual a mobilização pode pesar tanto quanto a conquista de novos votos.
O debate estimulou a participação ou reforçou a percepção de que a política se resume à disputa pelo poder? Não podemos afirmar que o confronto vá ampliar a abstenção. Todavia, quando os candidatos oferecem mais razões para rejeitar o adversário do que para confiar em suas propostas, cresce o risco de afastar quem já demonstra pouca identificação com a disputa.
A abstenção não beneficia automaticamente nenhuma candidatura. Seu impacto depende de quais eleitores deixam de votar, de sua distribuição regional e da capacidade de mobilização das campanhas. Por isso, o resultado do encontro ultrapassa os aplausos e as tensões das redes sociais. Em uma eleição decidida nos detalhes, transformar atenção em participação pode ser tão importante quanto conquistar novos apoios.
O que fica depois das câmeras?
Seria injusto afirmar que não houve propostas. O problema foi a dificuldade de aprofundá-las diante da urgência de atacar e responder. Governar exige escolhas, prioridades, recursos e responsabilidade pelas consequências. Nenhum desses desafios desaparece com uma provocação bem executada. As duas torcidas podem declarar vitória sem que o eleitor indeciso tenha encontrado critérios mais consistentes para decidir.
É essa distinção que precisa orientar a escolha. O Brasil não está decidindo quem se comunica melhor ou quem consegue constranger o adversário. Está elegendo o presidente da República, responsável por decisões que alcançarão milhões de brasileiros, inclusive aqueles que não votarem no vencedor. Essa dimensão deveria estabelecer a diferença entre um debate de ideias e uma competição de performances.
A um dia da votação, a pergunta mais relevante talvez não seja quem venceu o debate, mas quantos brasileiros terminaram a noite mais convencidos da importância de votar. Em uma eleição equilibrada, a ausência também interfere no resultado, embora suas razões nem sempre sejam políticas. Afinal, quando a performance ocupa o lugar do argumento, o maior derrotado pode não estar diante das câmeras, mas entre aqueles que, perante uma escolha tão importante para o Brasil, já não encontram razões suficientes para comparecer às urnas.
Weverton Santiago
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