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A volatilidade do eleitor: Quando o segundo turno deixa de confirmar o primeiro

Foto do escritor: Weverton Santiago
Weverton Santiago
há 3 dias
3 min de leitura

Entre a virada de Lula e a vantagem inicial de Flávio Bolsonaro, as eleições de 2026 revelaram um eleitorado mais volátil, capaz de rever escolhas, desafiar o favoritismo e transformar os últimos dias de campanha em um período decisivo para o resultado das urnas.



Durante décadas, a política brasileira conviveu com uma certeza quase matemática: quem chegava à frente no primeiro turno dificilmente perderia no segundo. A vantagem inicial era interpretada como tendência consolidada, enquanto a etapa seguinte parecia destinada apenas a confirmar o resultado. As eleições presidenciais de 2026 romperam essa lógica e colocaram em evidência um fenômeno que merece atenção: a volatilidade do eleitor, cuja decisão pode permanecer aberta mesmo quando o cenário eleitoral parece definido.


A virada de Lula sobre Flávio Bolsonaro não representou apenas uma inversão de posições. Revelou os limites da previsibilidade eleitoral e a fragilidade das expectativas construídas sobre resultados anteriores. O eleitor que comparece às urnas no segundo turno não necessariamente reproduz o comportamento da primeira votação. Entre uma escolha e outra, novas percepções podem surgir, convicções podem ser reconsideradas e a própria disposição de participar pode mudar.


Essa volatilidade, entretanto, não deve ser confundida com ausência de convicção. O eleitor pode preservar suas referências políticas e, ainda assim, modificar sua decisão diante de circunstâncias diferentes. Quando a disputa se reduz a duas alternativas, o voto passa por uma nova avaliação de confiança, rejeição, riscos e expectativas. Isso não significa um abandono de identidade política, mas uma reinterpretação sobre qual candidatura corresponde melhor às suas prioridades no momento.


O fenômeno ganha relevância na reta final das campanhas, quando a disputa deixa de depender exclusivamente da vantagem acumulada e passa a ser influenciada pela capacidade de mobilização e convencimento. A redução da abstenção nacional entre os dois turnos de 2026 acrescenta outra dimensão a essa leitura: a volatilidade não está apenas na mudança de preferência, mas também na decisão de participar. Um eleitor que não votou anteriormente pode alterar o equilíbrio de uma eleição.


Esse cenário sugere que parte do eleitorado pode ter definido seu voto apenas nos últimos dias, evidenciando que uma vantagem eleitoral não é necessariamente definitiva. Esse comportamento aponta para uma possível transformação na dinâmica das disputas e abre espaço para a reconfiguração das expectativas eleitorais, especialmente diante de um eleitorado, cujas preferências podem estar menos consolidadas do que sugerem as pesquisas e os discursos de campanha.


Nesse ambiente, o favoritismo também adquire uma dimensão psicológica. A sensação de vitória antecipada pode produzir acomodação, enquanto a perspectiva de derrota pode estimular uma mobilização mais intensa. Nenhuma dessas reações, porém, ocorre automaticamente. O resultado depende da interação entre conjuntura, participação e capacidade de convencimento e mobilização. Já a volatilidade amplia as possibilidades de mudança, mas não determina, por si só, quem será beneficiado por elas.


Sendo assim, a experiência de 2026 também exige uma distinção importante: o primeiro turno continua sendo um indicador relevante da força eleitoral de cada candidatura, mas não representa uma sentença sobre o desfecho. O segundo turno possui dinâmica própria, reorganiza apoios e submete os candidatos a uma nova avaliação popular. A liderança inicial pode permanecer sólida ou perder consistência conforme a campanha avança e o eleitor redefine suas expectativas.


A eleição de 2026 não permite decretar o nascimento de um novo eleitor, mas obriga a política a reconsiderar antigas certezas. Se antes o segundo turno parecia uma estrada cujo destino estava anunciado, agora ficou evidente que o percurso também pode redefinir a chegada, pois o eleitor volátil não necessariamente oscila de opinião a cada acontecimento, ele pode simplesmente adiar sua decisão definitiva até encontrar razões suficientes para seguir com sua escolha ou mudá-la.


Weverton Santiago


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