A eleição da rejeição: Quando o voto contra pode decidir quem será presidente
- Weverton Santiago

- 15 de ago.
- 3 min de leitura

Quaest mostra Flávio Bolsonaro com 54% de rejeição e Lula com 52%. Com a polarização consolidada e uma disputa apertada, a corrida presidencial pode ser definida menos pela paixão dos eleitores e mais pela capacidade de cada lado de administrar sua rejeição e evitar erros.
A nova pesquisa Quaest acrescenta um componente importante à corrida presidencial de 2026. Lula e Flávio Bolsonaro não lideram apenas as intenções de voto, eles também concentram os maiores índices de rejeição entre os principais candidatos à Presidência.
Flávio Bolsonaro aparece com 54% dos entrevistados afirmando que não votariam nele de jeito nenhum. Lula registra 52%. Os números colocam os dois principais polos da eleição diante do mesmo problema: como construir uma maioria quando mais da metade do eleitorado manifesta resistência ao seu nome?
Essa talvez seja uma das principais contradições de 2026. A polarização continua forte o suficiente para conduzir Lula e Flávio ao centro da disputa, mas produz um efeito colateral, no qual ao mesmo tempo em que consolida bases eleitorais, também estabelece e cristaliza rejeições.
Nesse ambiente, a rejeição deixa de ser apenas um indicador negativo e passa a funcionar como uma espécie de teto eleitoral. Lula possui elevado conhecimento nacional, estrutura política, alianças partidárias e uma base historicamente pragmática. Entretanto, justamente por protagonizar a política brasileira há décadas, carrega também uma rejeição igualmente construída.
Flávio enfrenta problemas semelhantes por razões diferentes. O sobrenome Bolsonaro lhe garante acesso imediato a uma parcela expressiva do eleitorado conservador, mas também transfere para sua candidatura parte da resistência acumulada ao bolsonarismo. Seu maior ativo eleitoral pode ser, simultaneamente, sua principal barreira para crescer além da própria base.
Os números ajudam a dimensionar essa equação. Lula aparece com 38% das intenções de voto no primeiro turno, contra 31% de Flávio. Em uma eventual disputa direta, entretanto, a distância cai para 43% a 40%. É justamente nessa margem estreita que mora um dos maiores riscos para as duas candidaturas.
Quando a diferença se aproxima dos limites da margem de erro, os detalhes ganham dimensão estratégica. Uma declaração equivocada, uma crise mal administrada, uma aliança rejeitada ou uma comunicação mal conduzida pode interferir no equilíbrio da disputa. Com rejeições superiores a 50% e poucos pontos separando os dois lados, Lula e Flávio possuem pouco espaço para erros.
A matemática eleitoral apresenta, então, uma aparente contradição: dois candidatos rejeitados por mais da metade dos entrevistados disputam uma eleição praticamente empatados. Ou seja, não existe necessariamente contradição, existe polarização.
Posteriormente, no segundo turno, o eleitor não precisa necessariamente gostar de um candidato para votar nele. Basta rejeitar o adversário com intensidade maior. É nesse ponto que a eleição pode mudar de natureza. Em vez de uma disputa exclusivamente pela preferência, podemos caminhar para uma disputa pela menor rejeição relativa. O voto passa também a funcionar como instrumento de veto.
Assim, o eleitor de direita que possui alguma resistência a Flávio poderá votar nele para derrotar Lula. Da mesma maneira, um eleitor insatisfeito com o governo poderá votar em Lula para impedir o retorno da família Bolsonaro ao Palácio do Planalto.
A própria Quaest oferece outro sinal desse fenômeno: 45% afirmam sentir medo da volta da família Bolsonaro ao poder, enquanto 41% temem a continuidade de Lula. Isso explica parte da dificuldade dos candidatos alternativos. Possuir rejeição menor não significa necessariamente possuir força eleitoral. Existe uma diferença importante entre ser pouco rejeitado e ser desejado pelo eleitor.
É a batalha das rejeições pautando as eleições, uma disputa tão apertada que qualquer erro pode romper a fina camada de gelo sobre a qual caminham as duas candidaturas.
Weverton Santiago
.png)


