Casagrande e a força de 1 milhão de votos: pragmatismo como marca política
- Weverton Santiago

- há 1 dia
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Em entrevista ao Nossa Política, candidato ao Senado fala sobre segurança, gestão fiscal, polarização e sucessão estadual, defende Ricardo Ferraço e projeta um novo ciclo político em Brasília.

Há políticos que atravessam eleições, outros atravessam gerações. Renato Casagrande pertence ao segundo grupo. Desde 2006, construiu uma regularidade eleitoral pouco comum na política capixaba: nas eleições em que saiu vitorioso, ultrapassou a marca de 1 milhão de votos. A exceção foi 2014, quando, mesmo derrotado, alcançou aproximadamente 750 mil votos. Não se trata apenas de quantidade. A permanência desse eleitorado ao longo de diferentes conjunturas ajuda a explicar um fenômeno político que merece ser observado.
Na entrevista ao Nossa Política com Weverton Santiago, Casagrande apresentou uma explicação simples para essa longevidade: trabalho, resultado e capacidade de diálogo. Mas existe algo além. Sua trajetória parece ter encontrado correspondência em uma característica histórica do eleitor capixaba: o pragmatismo.
O Espírito Santo possui um eleitor politicamente conservador no sentido de preservar aquilo que considera funcional. Não necessariamente conservador ideologicamente, mas pouco afeito a rupturas quando enxerga estabilidade e resultado, é o que mostram as últimas disputas pelo Palácio Anchieta.
Casagrande entendeu esse comportamento. E fez do pragmatismo uma identidade. Durante a entrevista, definiu-se como alguém “previsível”, ressaltando que permaneceu no mesmo partido durante toda a sua trajetória e que não pretende mudar sua natureza. Em tempos de intensa migração partidária e de discursos moldados pelas circunstâncias eleitorais, previsibilidade pode se transformar em ativo político.
Essa característica apareceu com ainda mais clareza quando o debate chegou à polarização entre direita e esquerda. Casagrande rejeitou essa dicotomia como centro da atividade administrativa e recorreu ao futebol para se definir como “ambidestro”: faz gol com a direita e com a esquerda. A metáfora resume sua estratégia política. O ex-governador não tenta negar suas convicções políticas, mas procura construir sua imagem eleitoral acima das fronteiras ideológicas, ancorada principalmente na entrega de resultados.
Essa talvez seja uma das chaves para compreender o “homem de 1 milhão de votos”. Casagrande conseguiu construir uma base eleitoral transversal, capaz de dialogar com setores diferentes do espectro político. Seu discurso busca ocupar um espaço que, em períodos de polarização, pode parecer estreito, mas que no Espírito Santo historicamente encontra terreno fértil: o centro político orientado pela gestão.
Na segurança pública, por exemplo, apresentou uma posição mais dura do que aquela normalmente associada ao campo político de onde vem. Recordou a implantação do Estado Presente, falou sobre a redução dos homicídios e defendeu mudanças na legislação penal. Ao projetar sua eventual atuação no Senado, afirmou que pretende participar do debate sobre o Código Penal e resumiu sua posição com uma frase direta: “bandido bom é bandido preso”.
Na gestão fiscal, Casagrande procurou transformar números administrativos em prestação de serviço. Destacou investimentos equivalentes a 20% da receita estadual, a poupança do Estado, o baixo endividamento e o fundo soberano. Mais importante que os números isoladamente é o argumento sobre eles: responsabilidade fiscal não como instrumento de contenção do Estado, mas como condição para ampliar sua capacidade de investimento.
É justamente nessa combinação que Casagrande pretende sustentar seu novo projeto. Segurança, responsabilidade fiscal, investimento público e políticas sociais aparecem misturados em um modelo que tenta escapar das classificações tradicionais. Politicamente, é uma estratégia inteligente porque amplia suas fronteiras eleitorais e reduz a necessidade de escolher um dos polos.
Outro ponto importante da entrevista foi a sucessão estadual. Casagrande não deixou margem para ambiguidades ao defender Ricardo Ferraço. Apresentou o atual governador como conhecedor do Espírito Santo, experiente, institucionalmente equilibrado e capaz de garantir continuidade ao projeto iniciado por seu grupo. A expressão “time que está ganhando não se mexe” revela a essência da estratégia eleitoral: transformar a eleição estadual em um julgamento sobre continuidade ou ruptura.
Há, porém, um detalhe importante. Casagrande não vende Ricardo apenas como seu sucessor. Tenta apresentá-lo como continuidade sem paralisia. A metáfora utilizada “trocar o pneu do carro com o carro andando”, procura transmitir exatamente esse movimento: mudar sem interromper. Em uma sociedade politicamente pouco inclinada a rupturas profundas, essa narrativa pode encontrar aderência.
Na política nacional, Casagrande também adotou posição moderada. Avaliou que a eleição presidencial continuará polarizada, embora em intensidade menor que em 2022. Reconheceu resultados positivos do governo Lula em emprego e inflação, mas apontou o desequilíbrio fiscal como obstáculo à confiança e à redução mais rápida dos juros. Sua leitura eleitoral também foi interessante: mais do que uma disputa de popularidade, enxerga 2026 como uma disputa de rejeições. Para ele, vencerá quem conseguir administrar melhor seus negativos.
Essa observação talvez também explique sua própria estratégia. Casagrande construiu uma carreira tentando diminuir arestas. Evita confrontos desnecessários, preserva relações institucionais e procura não transformar adversários circunstanciais em inimigos permanentes. Em uma eleição marcada pela rejeição, possuir eleitorado consolidado e rejeição administrável pode valer tanto quanto ter uma militância apaixonada.
Ao final da entrevista, surgiu talvez a declaração politicamente mais relevante: Casagrande considera encerrado seu ciclo como governador. Depois de três passagens pelo Palácio Anchieta, afirmou estar iniciando um “novo ciclo”, agora nacional. O Senado aparece, portanto, não como aposentadoria política, mas como plataforma para projetar o Espírito Santo e sua experiência administrativa para Brasília.
Casagrande escolheu a palavra “confiança” para definir seu legado. Talvez seja também a palavra que melhor explique sua longevidade eleitoral. Um político pode ganhar uma eleição pelo entusiasmo, outro pela conjuntura e até uma terceira pela força de uma máquina partidária. Mas atravessar duas décadas mantendo um eleitorado próximo ou superior a 1 milhão de votos exige algo mais permanente, uma relação de lealdade entre o político e a população, isso é inegável.
Portanto, a eleição de 2026 dirá se essa relação continua intacta. Até aqui, porém, Casagrande chega à disputa carregando algo que poucos candidatos possuem: um eleitorado que já o conhece, uma trajetória testada nas urnas e uma identidade política consolidada.
O homem de 1 milhão de votos agora quer transformar capital estadual em protagonismo nacional.
Vamos acompanhar!
Weverton Santiago
Assista à entrevista completa:
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